sábado, 29 de março de 2008

Lisboa que adormece (Será?)

Fotografia de Carla D.

Recordo-me da minha infância passada por Belém, as brincadeiras, aquelas amizades de bairro, aqueles ambientes únicos, os verões sem fim, absorvidos até à última gota.
Lembro quando ia às compras a pé, até Algés, com a minha mãe. Eram viagens mágicas, de descoberta e puro prazer.
As viagens de eléctrico…
Depois, com 9 anos, deixei de viver em Lisboa. Manteve-se a paixão.

Adoro esta Lisboa, que parece renascer ao cair do dia, no crepúsculo… Que, qual Fénix, mostra uma nova face, uma nova cor, e adquire um novo fascínio.
Adoro passar a ponte 25 de Abril e maravilhar-me ao ver a miríade resplandecente de luzes.
És uma feiticeira das noites de verão à beira Tejo, musa de poetas e sonhadores.


By Carlos D.

O ano da morte

Fotografia de Carla D.

Chovia quando te comecei a ler
E nas tuas primeiras letras a chuva
Um amontoado de palavras a desenhar o retrato
Sobre a cidade das ruelas escrever
No tempo em que se tirava a luva
Para cumprimentar os amigos à porta do Teatro

Nasceste aí em frente a ele
Passaste por ali tantas vezes
De passo apressado, cima-abaixo nas escadinhas
Quando era já só memória na pele
Uma recordação que percebes
Que entendo ao ter-te nas minhas mãozinhas

Era pequena quando te li, Ricardo
Oferecido pelo meu pai, António
De toda a Lisboa andante bastardo
Sem saber eu que eras heterónimo
Fecho o livro e já não é dia
A noite ainda não chegou
Afinal és Pessoa, não sabia
Foi isso que o pai me ensinou

Chovia, lembro-me, quando subi as escadinhas
E nas minhas primeiras memórias a chuva
Um amontoado de gotas a desenhar poças
Com aquelas paredes ainda limpinhas
Exponho a mão para fumar, sem luva
Vou atrasada para o teatro... Não corras


By Joana Latino

quarta-feira, 26 de março de 2008

Luz



A Marta (não, não é a da Teleseguro, embora em boa verdade o pudesse ser) era uma rapariga de bem com a vida.
Um dia, contudo, e por incrível que pareça, a melancolia e tristeza penetrou o seu escudo impenetrável.
Sentiu-se pequena face à imensidão do Mundo. Recordava todas aquelas pessoas “realmente importantes”, que fizeram algo de extraordinário, e pensava: “que fiz eu de surpreendente e único? Nada!”. Sentiu-se insignificante.
Durante o dia estes pensamentos não a abandonaram (era uma rapariga de ideias fixas) …
Chegando a casa, tomou banho, jantou e, sempre com esta ideia presente, abandonou-se ao conforto do sofá.
Enquanto fazia zapping, num total abandono hipnótico, encontrou finalmente a resposta.

Sim, ela era importante. Importante para quem a amava, para quem gostava dela de verdade.
Era única e especial no coração de algumas pessoas.

Recordou alegrias, tristezas, risos e choros partilhados. Recordou a tristeza e a dor sentida, perante a perda de quem realmente ela gostava.
Tinha percebido finalmente. A luz que dela emanava era imperdível para o mundo.


By Carlos D.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A Estação e a viagem


Tantas vezes procuro racionalizar as coisas, analisá-las, procurar perceber os significados mais recônditos dos comportamentos alheios.
Sempre tive a "mania" das psicologias (sorriso). A mania do controle. Isto de alguma forma é perturbador.
Provavelmente, tudo isto esconde alguma insegurança inconfessada, algum receio quase visceral de perder o controlo; porque no fundo nada é estanque, tudo muda. Talvez tenha medo de, no meio destas mutações todas, perceber que afinal não consigo controlar nada.
Depois, uma voz dentro de mim acorda-me para a realidade: "Pára! Go on, carpe diem, go with the flow, descontrai e deixa-te ir..."
Todos nós, no fundo, temos medo de expor o nosso lado mais frágil e vulnerável. Medo da dor. Medo da viagem. E como reagimos ao medo? Alguns de nós procuramos controlar tudo o que está à nossa volta, outros não reagem pura e simplesmente (é o mais seguro). Outros ainda, reagem de forma positiva e enfrentam os seus medos e receios, num equilíbrio entre o saber arriscar e o saber esperar...
No fundo, o medo é algo que interage na nossa vida, que é parte integrante dela. O importante é a forma como reagimos e enfrentamos esses fantasmas.

Alguém dizia algo como: "A felicidade não é uma estação onde se quer chegar, mas uma forma de viajar".


By Carlos D.


"Sometimes I feel the fear of uncertainty stinging clear
And I cant help but ask myself how much Ill let the fear take the wheel and steer
Its driven me before, it seems to have a vague
Haunting mass appeal
Lately Im beginning to find that I should be the one behind the wheel
Whatever tomorrow brings, Ill be there
With open arms and open eyes yeah
Whatever tomorrow brings, Ill be there, Ill be there
So if I decide to waiver my chance to be one of the hive
Will I choose water over wine and hold my own and drive, oh oh
Its driven me before, it seems to be the way
That everyone else get around
Lately, Im beginning to find that when I drive myself, my light is found
Whatever tomorrow brings, Ill be there
With open arms and open eyes yeah
Whatever tomorrow brings, Ill be there, Ill be there…"

Drive- Incubus

domingo, 9 de março de 2008

Alma rasgada


Fotografia de Paulo César

"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim."

Mário de Sá Carneiro

quarta-feira, 5 de março de 2008

Idiossincrasias



Idiossincrasias...
Vem isto a propósito de algo em que tenho meditado nos últimos dias e que de alguma forma me perturba.
Por vezes, para muitas pessoas, é complicado assumirem-se como realmente são.
Porquê? Porque a sociedade tende a compartimentar as pessoas em categorias. A pessoa rebelde, certinha, mal comportada, bonita, feia... No fundo a "normal" e a "anormal".
Que expressão horrível... "normal". Mas o que é ser "normal"? É algo que simplesmente não existe. A sociedade no fundo diz-nos que ser "normal" é fazer parte da maioria e ser mais um rosto anónimo na multidão.
Todo este processo, que leva à criação de máscaras, apenas conduz à alienação da identidade individual. Que graça tem um mundo em que cada um seja a cópia do outro ao lado?
A riqueza deste mundo está precisamente na corrente variável de pensamentos, de formas de estar, de vontades, de ideias...
O tesouro está precisamente nas idiossincrasias.
O problema é que tantas vezes fazemos concessões em nome daquilo que a sociedade contextualizou como certo e errado, como aceitável.
Se só vivemos uma vida de cada vez, porque perdemos tanto tempo a ser infelizes, a julgar os outros, a abdicarmos da nossa identidade? Porque não aproveitar esta grande aventura que é a vida?
Depois recordei-me da Teoria Evolutiva de Darwin.
O processo de descoberta pessoal assemelha-se muito a um processo de selecção natural em que as pessoas que estão aptas para lidar connosco se vão afastando ou não do nosso círculo de amizades.
Apenas aquelas pessoas que realmente investirem um pouco do seu tempo no conhecimento do meu verdadeiro "eu" permanecerão.

By Carlos D.

domingo, 2 de março de 2008

Entre mundos

Fotografia de Carlos D.

E se um louco lhe dissesse…
Vamos beber a tempestade, trautear uma singela melodia.
Vamos avançar no silêncio e na sua expressão imperscrutável.
Já viste o olho do silêncio?
E o silêncio existe, pelo menos este.
Vamos domar dragões?

No balcão observo…
Vidas que passam, sonhos desfeitos, almas perdidas,
pensamentos dispersos, que deslizam com o vento.
Observo crianças, que brincam na sua alegria inocente, sedentas de viver.

Sabes? As pontes no meu sonho são tentáculos de um polvo, pernadas da árvore da minha vida.
Permaneço em mim.
Sabes quem sou?
Pertíssimo deste lugar indolente, os gigantes da floresta não entram.

By Carlos D.